16/03/2008...10:56 pm

Muda-se alguma coisa na dança esquerda – direita?

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“O FUTURO DE BELO HORIZONTE
Prof. Antônio Machado Sociólogo e professor da Faculdade de Educação da UFMG
Em um ponto o projeto de aliança entre o PT e o PSDB para a eleição do prefeito da capital mineira (defendida pelas principais lideranças de ambos os partidos), possui um fundo de verdade. Minas Gerais e, especificamente, Belo Horizonte são laboratórios onde são ensaiados experimentos que, posteriormente, alargados e difundidos passam a modelo para outras regiões do país. O patriciado mineiro, aliás, tem uma larga experiência histórica em conchavos e composições cujos resultados sempre resultaram na permanência dos mesmos personagens no poder, apesar da aparência das mudanças. Algo próximo àquilo chamado de “gatopardismo”, na visão irônica de Lampedusa. Ou seja, mudar para que tudo ficasse como estava, ou seja, que nada mudasse realmente. O grosso das elites mineiras de hoje são provenientes de famílias governamentais de grande experiência e grande talento em prover seus interesses. E isto ocorre desde tempos imemoriais, conforme já havia apontado Cid Rebello Horta em seu ensaio de meio século atrás sobre as poderosas famílias montanhesas.
Com o crescimento da população, e com as transformações econômicas a ele associadas, alguns novos parceiros costumavam, e costumam, ser absorvidos pelas velhas elites, principalmente os que enricaram por suas atividades nos campos do comércio, da indústria, da agro-pecuária ou das finanças. Outras eminências e personalidades, qual mariposas que gravitam em torno da luz dos palácios – artistas, intelectuais e esportistas – engordam este vasto manancial que provê os gestores ou candidatos a gestores dos principais cargos públicos existentes nas eleições de diferentes níveis. A cúpula do antigo Partido Republicano Mineiro – a famigerada Tarasca, como ela era conhecida dos tempos idos da República Velha – escolhia a dedo os deputados que receberiam mandatos (mais ungidos que eleitos, em vista da fraude sistemática), e quais as regiões que eles representariam, pois seriam nelas votados. O bem aventurado não precisava nem ir mendigar aos eleitores o favor de sua escolha. Podia, mesmo, nem saber onde se localizava a circunscrição que lhe estava destinada a representar. As práticas usuais de “manipulação e pancada” (quando necessária), garantiam a formalização dos resultados já previamente definidos. Na alegoria sarcástica de Eça de Queiroz sobre a escolha de Alípio Abranhos como deputado por Freixo-de-Espada-à-Cinta (como que descrevendo profeticamente a permanência no Brasil dos arraigados costumes portugueses), o processo eleitoral era marcado por “corrupção, tricas, violências, peitas e influências obscenas”… Na sua carta de agradecimento aos seus eleitores Alípio dizia: “Um dia, amigos, irei visitar a vossa bela província do Minho, que eu apenas conheço incompletamente, e espero então, oh freixenses, apertar a vossa honrada mão de verdadeiros liberais e de verdadeiros portugueses”. O cômico da situação é que o futuro conde de Abranhos demonstrava nem saber onde era Freixo. Pensava que era no Minho, mas na verdade ficava em Trás-os-Montes. Francamente, haveria alguma diferença da hilariante fantasia do grande romancista português, e a situação de certos políticos mineiros com mandato, cujas eleições foram turbinadas por rios de dinheiro na compra de cabos eleitorais espalhados pelos grotões de todo o estado, ou pela pressão de agentes políticos governamentais? Pois como explicar o fato de haver deputados debutantes terem sido votados em centenas de municípios mineiros (meia dúzia de votos ali, uma centena ali, outros milhares acolá), a não ser pelo recurso sistemático à “corrupção, tricas, violências, peitas e influências obscenas” conforme enumeradas por Eça?
A elite política de Minas Gerais configura, pois, um verdadeiro mandarinato que protege os seus interesses acima de qualquer coisa. Os vínculos orgânicos dessas elites com esta estrutura oculta de poder podem, portanto, ser aferidos pelas suas biografias e seus laços de parentesco. Mesmo nos partidos ditos de esquerda as figuras mais proeminentes provém do mesmo celeiro. Lembra a noção de carma do budismo. Mas é um carma político, que se transmigra através das gerações, e que vai atualizando e aprimorando sua capacidade de mando no exercício permanente do poder, só rompido eventualmente por algum aventureiro que, no entanto, logo é afastado ou incorporado na periferia deste sistema de maneira subalterna, atendendo aos desígnios desta vasta rede de comensais dos recursos da população. O caso do ex-governador Newton Cardoso pode ser visto como exemplo deste processo de inclusão/exclusão. Um vacilo oligárquico permitiu a um aventureiro como ele se eleger governador de Minas Gerais. Uma recomposição da capacidade operante das sólidas elites mineiras possibilitou a elas, no entanto, reassumir o comando do estado nas eleições posteriores. Hélio Garcia (antigo parlamentar golpista da UDN estadual e quadro reciclado do regime militar); Eduardo Azeredo (tecnocrata jovem e obscuro, porém, filho do prestigiado ex-deputado pessedista Renato Azeredo); Itamar Franco, ex-senador e ex-presidente da República e, presentemente, Aécio Neves (neto do ex-governador e ex-presidente Tancredo Neves, figura de proa do PSD histórico, o qual carece de maiores apresentações).
As eleições da capital mineira seguiram, de maneira geral, as tendências observadas no âmbito estadual, considerando-se apenas o período pós-regime militar, o qual impedia a escolha direta dos prefeitos das capitais. Na primeira eleição popular (em 1985), foi escolhido Sérgio Ferrara, radialista esportivo e medíocre deputado com um perfil similar ao de Newton Cardoso (de quem era, aliás, fiel aliado e seguidor). A ele se sucederam típicos representantes do já referido patriciado mineiro: o ex-deputado Pimenta da Veiga, proveniente de sólida família governamental e Eduardo Azeredo (então vice-prefeito e cuja origem já se destacou). A partir de 2002, iniciou-se o ciclo petista com a escolha de um jovem patrício (com sólidas ligações com a Igreja Católica e proveniente de tronco familiar composto de abastados comerciantes e empresários integrados à elite mineira). A Patrus Ananias sucederam o médico Célio de Castro, eminência altamente prestigiada e de largo trânsito nas cúpulas dos diferentes partidos políticos (apesar de ser originariamente ligado ao PC do B, passou pelo MDB e ajudou a fundar o PSDB antes de transitar pelo PSB e desembarcar no PT), e Fernando Pimentel (patrício originado de família das mais ricas da capital mineira, notável pela habilidade nas artes financeiras e orçamentárias e, em aparente paradoxo, vinculado a grupos politicamente de esquerda devotados a ações de guerrilha).
É curioso observar que os principais postulantes nas sucessivas eleições saiam sistematicamente do seio das famílias governamentais, com raras e honrosas exceções. Contra Patrus, em 1992, disputaram Aécio Neves e Maurício Campos (ex-prefeito nomeado da capital mineira e quadro político do regime militar); em 1996, a disputa se deu entre Célio de Castro contra Amílcar Martins (professor universitário e ex-deputado estadual, broto de ramos dos mais evanescentes das famosas famílias mineiras), e Virgílio Guimarães (deputado federal petista, cuja origem social está em algumas das famílias mais oligárquicas e plutocráticas de Minas Gerais (os Guimarães e os de Paula, notórios ricaços e políticos da região central do estado); em 2.000, Célio de Castro disputou com o deputado João Leite (atleta de matriz popular, evangélico e filho de antigo guarda civil estadual); em 2004, Fernando Pimentel disputa e vence a eleição, novamente contra o deputado João Leite. Neste último pleito, por sinal, já ficou patente um pacto entre o então governador Aécio Neves e o prefeito Fernando Pimentel que disputava a reeleição, para viabilizar o sucesso deste último. As manobras de bastidores, os atos explícitos e implícitos, a forma como a campanha de João Leite foi organizada e manipulada, permitiram a este a triste façanha de começar o processo eleitoral com 40% de preferência popular e terminá-la com somente 20%, sendo derrotado ainda no primeiro turno. O que parecia estranho e obscuro a muitos – o fato de que a equipe que cuidava da parte publicitária da campanha ter vínculos com Duda Mendonça e com outros agentes responsáveis por campanhas petistas, não só na capital mineira como em outros lugares – torna-se claro quando iluminado pelos acontecimentos do presente. Já naquele distante 2004, enquanto Duda Mendonça forjava uma imagem de realizador para sustentar a, enfim, vitoriosa campanha de Pimentel, seus amigos mantinham João Leite prisioneiro de um discurso político infantilizado e pueril, numa complexa deconstrução publicitária que fragilizou aquele que era o mais forte no princípio do processo eleitoral. Foi uma obra prima de engenharia política, conduzida de poderosos gabinetes, e cujos desdobramentos encontram-se presentemente em curso. O apoio de Aécio Neves a João Leite, em 2004, lembrava o apoio que a corda dá ao enforcado, numa demonstração do talento político genético do governador mineiro. Na interface destes movimentos estavam profissionais da política como o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia e a onipresente consultoria da Vox Populi (uma verdadeira autarquia governamental), com um pé no palácio da Liberdade e outro, sempre, no palácio do Planalto. Talvez para ser fiel ao destino de seu homônimo bíblico – o profeta hebreu Iokanan – o batista João Leite viu sua cabeça ser entregue a Fernando Pimentel num preito de rendosa devoção cuja fatura estava lançada no futuro. O fascínio avassalador do Tetrarca da Galiléia pela filha de Herodíade fez Herodes sucumbir à manipulação palaciana. Não se sabe, todavia, se Herodes possuiu biblicamente Salomé mas, em compensação, a cristandade ganhou um santo.
A percepção de que uma candidatura do PT, em Belo Horizonte, sofre da conhecida “fadiga de material” cria a oportunidade para uma convergência maior de interesses entre o prefeito Fernando Pimentel e o governador Aécio Neves, na escolha de um candidato comum sem qualquer luz própria. A cidade está cansada da mesmice peculiar ao discurso petista (governo popular, orçamento participativo, escola plural, inclusão social etc). Os grandes nomes disponíveis nas hostes do petismo são os ministros Patrus Ananias e Luiz Dulci. O primeiro já disse que não quer ser prefeito novamente, pois pretende ser governador de Minas, em 2010; o segundo (sobrinho do ex-governador Milton Campos), mineiramente não entra em bola dividida, profissional que é nas artimanhas do jogo dos bastidores e fiel aos maneirismos históricos de sua grei, dificilmente abandonará o gabinete de ministro que ocupa, ao lado do presidente da república, de onde manuseia as guitas de controle dos movimentos sociais em todo o país. Outros eventuais pretendentes do PT são figuras menores, vereadores ou deputados obscuros que estão mais interessados em cargos burocráticos ou benesses para seus acólitos, acostumados que estão a comer na mão dos maiorais e, portanto, sem condições de sustentar um projeto audacioso de poder.
Mas Pimentel tem um problema. Um prefeito eleito pela oposição não aceitará receber pacificamente o passivo da Prefeitura de Belo Horizonte. Após controlar com mão de ferro as finanças da capital mineira por 16 anos, Fernando Pimentel precisa de um sucessor que, no mínimo, aceite pagar os débitos de curto prazo que serão deixados (em desacordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal), e não permita uma auditoria que desvende as práticas desenvolvidas e consolidadas por seu grupo político durante uma década e meia. Um sucessor que fosse um prefeito fantoche, portanto, é uma questão de vida ou morte, política, por suposto. Seria necessário um homem que mantivesse a estrutura organizada pelo PT acoplada na prefeitura e que não tivesse base política ou parlamentar em condições de sustentar uma eventual rebelião. Um verdadeiro pau-de-amarrar-égua, no pitoresco linguajar da sabedoria interiorana. Alguém sem luz própria e que se disponha a funcionar como se fosse uma marionete da poderosa máquina petista agarrada à prefeitura como uma colônia de cracas no casco de um navio.
Este é um breve sumário sobre o quadro de Belo Horizonte. Se ao PT e a Pimentel os interesses de curto prazo são visíveis, quais seriam os interesses de Aécio nesta eventual composição? Fazer um teste para 2010? Ver como funciona um partido tipo “barriga de aluguel”? Retomar em novo patamar o histórico pacto de elites, despolitizando o processo eleitoral de uma cidade que sempre foi marcada pela vitalidade política? Construir uma linha estratégica para disputar o senado e se credenciar como herdeiro único do espólio do PSDB, após uma nova derrota dos tucanos paulistas? Isto será discutido mais à frente.
Fernando Pimentel inundou a cidade com uma carta “aos companheiros e companheiras do Partido dos Trabalhadores”. No panfleto ele desenvolve argumentos em favor do conchavão com os tucanos, mascarando o negócio com uma suposta aliança com o PSB, afinal, um partido da base (e bota base nisto, pois é da base municipal, da base estadual e da base federal). O PSB, aliás, se contenta em todos os níveis, a ser coadjuvante perpétuo, uma espécie de rêmora entre tubarões. No banquete dos predadores o simpático peixinho sobrevive com as migalhas que escapam das fauces medonhas das feras marinhas. Animal realista, a rêmora não ousa nadar além do limite conveniente. Qualquer descuido e o protetor tubarão pode transformá-la em almoço. Assim, sob as asas de tão poderoso aliado, ela vai sobrevivendo; não come filé, é verdade, mas uma carne de pescoço até que não é tão ruim assim… A base de Pimentel possui, ainda, aqueles que, como os carrapatos, fazem respeitáveis percursos (PC do B, PV, PTC, PPS etc.). São os que viajam longe, mas sempre no lombo do boi. Neste rol dos carrapatos políticos situam-se os que bravateiam postulações próprias para vender, mais à frente, uma submissão disciplinada aos interesses do projeto “democrático popular” em troca, claro, de cargos secundários e benesses clientelísticas. Às vezes, o acarino ixodídeo cai da montaria – enfartado de sangue – ensaiando uma rebelião contra o hospedeiro. Logo, logo, porém, rende-se aos ditames de sua natureza e, esperando com ânsia o boi passar novamente ali por perto onde caiu ao solo, encarapita-se nas pernas, nos testículos, no períneo ou nas orelhas do sólido ruminante e volta ao exercício do seu costumeiro papel de parasita. E não há como se livrar da horda. Carrapatos, como os diamantes de James Bond, são eternos, são para sempre. Os partidos carrapatais são tão insignificantes que Fernando Pimentel nem se dá ao trabalho de fazer menção a eles. Nem que fosse por mera e retórica homenagem. Definitivamente não gasta seu latim nem perde um minuto do seu tempo em qualquer ritual de adulação. O não-dito, por um paradoxo de comunicação, diz tudo. Diz, por exemplo, o quanto de desprezo se tem por “parceiros” menores, verdadeiros zeros à esquerda. Tais “partidos” (vá lá a concessão, que o sejam), compostos por gente que vende a alma por qualquer cargo de “assessor especial” da prefeitura, sobrevivem cevados nestas boquinhas domesticadoras nas quais o PT tem verdadeiro doutorado e pós-doutorado. Porém, se mentira e trucagem há na carta, não há nela qualquer hipocrisia, que é a homenagem que o vício usualmente faz à virtude.
Segundo a tese de Pimentel, a eleição de Célio de Castro, em 1996, fez parte do “nosso projeto de transformação da sociedade” e, portanto, tanto faz como tanto fez que a cabeça da chapa nas eleições deste ano seja ocupada por alguém deste partido. Pode a companheirada ficar tranqüila, parece dizer ele. As boquinhas dos companheiros e das companheiras ficarão garantidas. Com a pegajosa ocupação de toda a estrutura administrativa da prefeitura e com o perfil subalterno e venal da Câmara Municipal, um eventual “prefeito” sem força política e sem luz própria ficará refém das conveniências estabelecidas e não terá como escapar de ser engolido. Ficará como aquela aranha paralisada pelo veneno do predador, que a transforma em hospedeiro condenado à morte dentro de uma toca da qual não pode escapar. O destino da aranha é servir de alimento para a voraz larva da vespa cujo ovo foi sobre ela colocado. Pimentel parece relembrar à companheirada que eles já têm experiência acumulada em engolir prefeitos. Célio de Castro, apesar de escolhido dentro de uma composição política/partidária de oposição ao PT, comandou a prefeitura sob os ditames das hostes petistas às quais até aderiu, formalmente, algum tempo depois. Verdade seja dita que foi bem recompensado: a aposentadoria que os ex-prefeitos de Belo Horizonte recebiam, e que foi extinta como uma das primeiras medidas moralizadoras da administração Patrus Ananias, foi recriada exclusivamente para brindar ao Dr. Célio um confortabilíssimo fim de vida (a famosa bolsa-prefeito). Amigos movidos por gratidão sempre são uma dádiva dos céus. E se a gratidão puder ser debitada nas costas do contribuinte, independentemente da ética e da moralidade, melhor ainda. Trabalhadores comuns, coitados, tem seus direitos restritos aos limites das leis previdenciárias, sejam funcionários públicos ou da iniciativa privada. Mas um bom amigo, convenhamos, merece, e muito, uma torção da Lei, que é válida somente para o comum dos mortais. Imitando o gesto famoso do Coronel Jarbas Passarinho (quando da assinatura do AI-5), disseram os petistas da Prefeitura de BH: “às favas, a moralidade”. Para os amigos, tudo! Para os otários, claro, a Lei. E para os inimigos, evidentemente, os rigores da Lei. Se Pimentel e todos os empresários que ganharam rios de dinheiro em Belo Horizonte quisessem proteger e amparar um benfeitor como Célio de Castro, por que não fizeram uma vaquinha com dinheiro do próprio bolso? Não. Fazer deste modo seria comportar-se como otário. Melhor fazer a mesura com o chapéu alheio. E isto foi, exatamente, o que fizeram. Enquanto os aposentados comuns penam com a progressiva redução de seus proventos ao longo dos anos, os patrícios bem nascidos – como o Dr. Célio – não encontram dificuldades ao longo da vida. Tal qual o Desembargador Amado, de Eça, “deixou-se ir e chegou”. Quando manteve Pimentel e sua turma no controle das finanças e do orçamento da Prefeitura, Célio de Castro assinou ali sua sentença condenatória: rendeu-se ao sufoco que era feito sobre ele e passou a ser um simples títere. “Tá dominado, tá tudo dominado!”, conforme o brado que se ouvia antigamente nas ruas e nas arquibancadas. Mas os gratos companheiros não o deixaram na rua da amargura, reconheça-se o fato.
Um acerto para a escolha de um “prefeito” biônico (conforme propõe Pimentel), tem outro aspecto importante: a garantia de que não haverá nenhuma auditoria, nenhuma investigação ou nenhuma avaliação sobre os atos que a turma praticou por uma década e meia. Se mais à frente o possível “prefeito” escolhido no conchavão resolver se rebelar, aí já será tarde demais. O pau-de-bosta já estará nas suas mãos e de nada adiantará eventual protesto. Uma implosão administrativa (fruto do descalabro orçamentário e financeiro dos anos passados), não será mais culpa de Pimentel mas dele. E Aécio, docemente constrangido, lavará as mãos, lamentando que o esforço de construção de um projeto tão bonito tenha sofrido um colapso. O “prefeito” do conchavão ficará igual Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo, segurando os pepinos de Maluf e recebendo pancada de tudo quanto é lado. Vai virar, dentro do curral, um boi-preto-do-cu-branco.
Pimentel trunca propositadamente o histórico das eleições na capital mineira. Como se esquecer que a primeira eleição do Dr. BH se fez em oposição a Patrus e ao PT que, em 1996, tinha como candidato o atual deputado federal Virgílio Guimarães? A ser verdadeira a versão pimentélica, e ela pode ser, admita-se, fizeram uma baita traição ao vibrante deputado petista que, pela sua genética oligárquica, é conhecido como “coronel”. Coronel similar aos da Guarda Nacional; coronel, como gostavam de se autodenominar os fazendeirões de Curvelo e outros rincões desta Minas Gerais. Teria a turma de Pimentel traído, portanto, o “coronel” companheiro, apoiando por baixo do pano as pretensões eleitorais de Célio de Castro que, também, disputava a prefeitura naquele longínquo 1996? Os que testemunharam aqueles tempos devem se lembrar que Patrus Ananias chegou a proibir Célio de Castro de fazer qualquer menção a ele, Patrus, nas suas falas de campanha. Patrus dizia, enfaticamente, que o candidato dele e do PT era Virgílio Guimarães. Quer dizer, ou Pimentel mente hoje para nós, ou mentiu ontem, não só para nós como, também, para seu próprio partido. Dada sua experiência de militância (confessada na carta aos “companheiros e companheiras”), militância que vinha dos tempos da juventude segundo afirma, militância esta igual à que gerou personagens como Delúbio Soares, José Dirceu e outros similares, sabe-se que a veracidade não ocupava para os tais militantes lugar de destaque. A verdade seria tão somente uma espécie de versão, mais ou menos conveniente, conforme o momento e conforme o lugar. É só lembrar as cínicas respostas de José Genoíno, José Dirceu, Silvinho Pereira e do Professor Delúbio nas investigações sobre o mensalão, e se terá uma medida exata da importância da verdade para este tipo de gente. Em sua “novilíngua” orwelliana, furto e corrupção passam a ser “recursos-não- contabilizados”; fraudes e trapaças se metamorfoseiam em “comportamentos-de- aloprados”; peculato vira “erro-administrativo”; suborno é agora “ajuda-de-custo-aos-companheiros-de-outros-partidos”, peitas viram “negociações-de-interesse-público” e, assim, sucessivamente, com re-significação de outras inumeráveis figuras descritas no Código Penal. No mesmo espírito do chamado “politicamente correto”, o que significava uma coisa passa a ter nova definição, pitorescas umas, ridículas e patéticas outras mais. Assim, não se diz mais que um homem é negro, mas que é afro-descedente (um negão seria, pois, um afro-descedentão?); anão passa a ser “ser humano com deficiência na dimensão vertical”; gordo não é mais gordo mas “ser humano com circunferência ventral excessiva”; careca, então, virou “ser humano com escassez de cabelos na telha” e velhinho agora é “ser humano do sexo masculino com abundância de anos vividos”. Esta nova cultura, de inspiração gramsciana, talvez contenha a explicação para a deliberada recusa de classificar os crimes da companheirada de singelos e desapercebidos erros. Um dos comensais do mensalão chegou a declarar que centenas de milhares de reais foram depositados na sua conta bancária, inadvertidamente… Num ambiente de comédia, esta declaração receberia, com certeza, um prêmio de criatividade e de comicidade!
Talvez inspirados na doutrina do “chicobuarquismo”, os lulo-petistas consideram que são como essas “mulheres que só dizem sim” e que “não existe pecado do lado de baixo do equador”. O “não” é banido da vida social, imitando a regra da Abadia Telemita de que falava Rabelais. A regra nova é a prevalência do “sim”. Neste recanto dos trópicos tudo, absolutamente tudo, é permitido. Qualquer aberração comportamental é justificável. Pode fazer isto ou aquilo? Pode, porque é pobre; pode, porque é preto; pode, porque é mulher; pode, porque não estudou; pode, porque é bastardo; pode, porque é sem-terra; pode, porque os tripulantes da frota de Cabral estupraram algumas índias; pode, porque os sobas africanos venderam escravos para os portugueses; pode, porque Pilatos mandou crucificar o Divino Mestre; pode, enfim, porque Adão comeu a fruta e provocou a ira do Eterno. Uma cadeia sem fim de culpas que justifica tudo e a todos, acarretando uma sorte de absolvição prévia e permanente.

Em outras inumeráveis trapaças do período Lula/PT, que as há em grande número, e com renovada criatividade no que se refere à forma de extrair dinheiro dos cofres públicos, os personagens flagrados com a boca na botija inventam as mais esfarrapadas desculpas, mentindo compulsivamente. Se há, pois, um traço comum a todos os discípulos do lulismo este é a mitomania. Certamente, nunca houve na história do país gente que mentiu com tanto gosto e com tal intensidade. Um verdadeiro prodígio, a começar do exemplo do chefe deles todos que, à mentira, agrega uma ingenuidade aparente e um suposto desconhecimento de todas as malfeitorias que se praticam a seu lado e dentro de sua própria casa. A sábia receita dos nazistas (mentir sempre até que a mentira vire verdade), foi canibalizada pelo lulo-petismo e transformada em dogma da política tropical. Os adeptos da honestidade e que não agem como eles, ai deles, recebem o benévolo tratamento de “inocentes úteis”, em dias de bom humor das cúpulas governamentais, ou de “otários”, quando o clima se torna mais ácido e as tensões ficam mais acirradas. É a Lei de Gérson em pleno vigor: “faça como eu, que gosto de levar vantagem em tudo: fume Vila Rica, certo?” era o bordão do craque. Gente mais antiga se lembra da propaganda profética do antigo jogador da seleção brasileira de futebol e de sua cara lambida na televisão, qual Guido de Montefeltri, dando tão pérfido conselho. Gérson, como todo gênio, e a seu modo, parecia estar olhando o futuro e o cenário que hoje vivenciamos. A Lei de Gérson poderia, assim, ser transformada em Lei do PT, ou Lei de Lula, que não perderia sua acre verdade nem falsearia seu profundo significado de receituário para predadores sem escrúpulos.”

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